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MAITHUNA
- A SEXUALIDADE NO TANTRA
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No
Ocidente, com a tendência mecanicista e simplória
de encarar os fatos concernentes ao
tantra, em particular o hinduísmo, no
geral, concebeu-se ao maithuna uma mera técnica
sexual. É comum esse sádhana (prática)
ser entendido como um aperfeiçoamento afetivo
erótico entre duas pessoas, embora não
o seja em toda sua extensão. Aliás,
a bem da verdade, se assim quiséssemos que
fosse, então nos bastaria conhecer o Kamasutra
de Vatsyayana e o Anangaranga. Lá temos um
tratado técnico de como “fazer amor”
na concepção mais corriqueira do termo.
São livros que chegam a incríveis
possibilidades de tomar o casal como pessoas psicológicas
em suas profundezas abismais, preparando-os emocionalmente
para as alegrias de uma atividade sexual plena e
sadia. Ainda hoje são atuais e extremamente
vivos. Portanto, confundir maithuna com kamasutra
é de uma gravidade inominável.
Depois de centenas de anos no anonimato, influenciado
subliminarmente todas as outras formas de filosofia
do oriente, é normal no que concerne ao tantra,
que exista essas confusões de sentido ético
e morais.
O hindú tântrico, observando as reações
íntimas entre os pólos opostos do
organismo cósmico, chegou a conclusões
muito parecidas como as dos modernos cientistas
sociais, físicos ou outros de áreas
análogas.
A ciência imagística do Tantra nasceu
dessas reações, do conhecimento (reconhecimento)
da realidade transcendental, a dualidade masculina
/ feminina presente na natureza. Nessa iconografia,
o sexo toma a forma de uma didática do conhecimento
do Universo, levando-se em conta o fato de que é
impossível imaginar o Cosmos sem essa dualidade,
e que a energia sexual nominal é equivalente
à energia criadora do universo.
O sexo está presente nas estruturas macrocósmica,
como está nas microcósmica. A capacidade
geradora (na verdade autogeradora) do Cosmos é
evidente em cada uma das texturas vitais de todas
as formas de vida. Mesmo quando organismos infinitesimais
parecem não possuir uma sexualidade visível,
lá está a dualidade energética,
disfarçada, informe como a própria
divisão dos organismos unicelulares flagra
esta constatação.
Na verdade é incontestável essa inteiração
das forças cósmicas positivas e negativas.
“Os tântricos vêem na sexualidade
a força mágica mais importante de
todas, do mesmo modo como ela é a expressão
de um mistério do universo dentro do homem”.
É a atração magnética,
maravilha dos místicos Shaktas.
Por motivos que só a Prakrti (natureza) sabe,
o nível de fluídos sexuais aumenta
e atrai o oposto numa sincronia universal exaustivamente
demonstrada para ser o que é um mistério
grandioso e belo. É o animus e anima a famosa
sizígia de Jung, onde emoção
e razão jogam suas energias no campo da consciência
do Purusha (EU).
No Maithuna o homem e a mulher se revelam muito
especiais. Quando aflora a supraconsciência,
uma extraordinária sensibilidade aparece,
corpo e mente conhece sutilezas jamais sonhadas.
Consciente, inconsciente e subconsciente é
colocado sob a influência harmonizantes do
Purusha (o eterno Testemunho Cósmico).
Esse “Eu” é a chave do conhecimento
e da realização apoteótica
SHIVA / SHAKTI. Mais que isso, é Purusha
a manifestação de Shiva, em grau intuicional.
É Prakrti, como Natura Naturans (manifestação
da Mahashakti - energia primordial).
Utilizando-se da eroticidade como o fogo que os
eleva, sádhaka e sádhika chegam a
essa mutação alquímica, elevando-se
da hominalidade para uma condição
dévica. A mulher é percebida diretamente
na sua essência, que é Shakti, consagrando
o homem. O homem é visto no seu interior,
consagrando a mulher como Mãe Cósmica.
Purusha; é esse fator metafísico,
incognicível, que permite a percepção
da totalidade, sem a qual jamais se poderia aspirar
à ascendência ao Samsara. É
a mônada, o selbest, o self, a alma, o atman,
que goza dos atributos da não qualidade,
da paradoxal transcendência e imanência
na matéria. É a vogal que fecunda
as consoantes no alfabeto Devanagari. É o
bíndu (ponto) no centro dos mandalas. O emanador
do Sri Yantra.
Purusha é a condição do samadhi.
É o eu-não-ego, aquele que é
a própria essência do Ser, sem o qual
não se pode conceber o ser-não-ser.
Toda vez que surge no ser humano a aspiração
pela transcendência, absolutividade, eternidade,
ascendência espiritual, é Purusha que
sustenta o complexo cósmico multifacetado,
chamado personalidade e que, através de sua
irradiação no interior dessa personalidade,
empurra para consciência cada vez mais alta
em direção a Shiva/Shakti.
O
QUE É NECESSÁRIO PARA EXERCER O
MAITHUNA:
O casal deverá ser consciente de todas
implicações tântricas desse
ato. Essa é uma necessidade vital para
a consecução satisfatória
da prática.
É importante que se diga que o sexo até
então praticado é virtualmente diferente
do que se pratica neste ritual. Por mais que na
forma tenha parâmetros de comparação,
a realidade é que o Maithuna não
tem nada a ver com o sexo comum.
O casal toma para si, de prévio acordo,
a incumbência de trabalhar suas energias
em função da Shaktização
da mulher. Fica estabelecido que os parceiros
são conscientes da empreita a ser suplantada
e que conhecem de modo satisfatório um
ao outro. Além disso, a condição
essencial para tomar um fim prodigioso na relação
a dois, é a de que os mesmos sejam amantes
apaixonados ou, no mínimo, respeitoso e
fraternos, afetivos e tranqüilos e que a
única ânsia seja a consumação
de suas energias no Puja à Shiva/Shakti.
Cada um deverá ser saudável e amigo,
sincero nas ações e firme nos propósitos,
evitando assim que o Maithuna seja uma relação
não fecunda e sem sentido. Sob a orientação
do responsável pelo casal, devem realizar
os sádhanas prescritos pelo Tantra, sem
mais demora realizar o Puja com seus corpos, na
forma de ásanas, bem como a contemplação
nos intervalos estabelecidos.
Maithuna é o ato sexual ritualizado, é
um processo sagrado no qual é necessário
uma preparação anterior muito séria
e competente através da instrução
de um guru (pode ser feminino ou masculino) tantrico.
O maithuna é considerado como o auspicio
maior de todas as cerimônias tântricas,
é a mais poderosa e secreta técnica
mística de todos os tempos. Essa técnica
também é conhecida como Shaktização,
pois os praticantes encarnam a consciência
de Shakti a grande mãe ou se busca a união
dos princípios masculinos e femininos -
os opostos. É o Maha Mudrá (grande
gesto) onde homem-Shiva e mulher-Shakti se tornam
um só...
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